Viti, entre a âncora e o pássaro
Viti Grosman é designer da Imaginarium, formado em publicidade pela PUC, e sua maior paixão é a pintura, tanto que chegou a fazer alguns semestres de artes plásticas na UFRGS. Atualmente, mora em Floripa, e adora sair por aí colorindo as paredes da cidade com suas sereias e outros personagens do mar. Viti já morou em Barcelona, viajou a Europa inteira e deixou sua marca em várias paredes e muros por aquelas bandas. Ok, e também em Nova York, e em Garopaba, e Quatro Ilhas... Não importa a distância, pra onde ele vai, algumas latas de spray, tintas e pincéis sempre são ótimas companhias. Além da mulher, Marina, que também é a criadora da Fresta. ;-)
O artista gaúcho também foi um dos participantes da mostra Transfer, que aconteceu no parque Iberapuera em SP, ao lado de grandes nomes da arte urbana como Os Gêmeos, Bruno 9li, Speto, Titi Freak, Thomas Campbell e vários outros.
Você já deve ter visto alguns dos desenhos dele por aqui, e também não é difícil se deparar com uma pintura do Viti pelas ruas. Mas pra conhecer todo o trabalho, vale dar uma espiadinha no site, que foi reformulado e entrou no ar esta semana: www.vitiworks.com.
Fresta: Você já perambulou pela publicidade, ganha a vida como designer, mas sua paixão mesmo é a pintura. Além da liberdade de expressão, o que mais te encanta nas artes?
Viti: A minha relação com a arte começou muito cedo. Lembro de dar uma importância toda especial para os trabalhinhos que tinham que desenhar, ainda na escola. E conforme crescia, o interesse foi só aumentando. Quando escolhi a publicidade, acho que havia uma pressão por ganhar dinheiro logo e buscar independência. Acabei fugindo pro design, onde pude ser um pouco mais autêntico, conquistar a independência que queria e uma "carreira". Nessa época, a ilustração começou a aparecer pra mim. Pude juntar o conhecimento que tinha da publicidade e design com a vontade de fazer arte. Mas acabei sentindo a necessidade de ter um trabalho autoral também, onde eu pudesse buscar um caminho próprio, mais autêntico e que eu acreditasse. E isso é o que me encanta nas artes: a possibilidade de ter um meio de auto-descobertas e libertação, e que deste mundo saiam coisas que possam comunicar com outros mundos, dando um sentido pra vida, mesmo que pequeno.
F: Um dos temas principais dos seus trabalhos são personagens do mar, como sereias, criaturas mitológicas, peixes, etc. E até mesmo você fez uma exposição, em parceria com o Carlos Dias, que o tema era “Dilúvio”. O que explica essa conexão especial?
V: Meu trabalho nasce muito intuitivamente e sem muito planejamento consciente. As minhas angústias, medos, desejos... florescem quase inconscientemente em cada obra. Pra quem acompanha minha vida, mais de perto, essa relação fica muito óbvia. O lugar onde eu vivo e produzo, o modo de vida das pessoas que observo, me relaciono... todo o meio que me cerca enriquece meu repertório de maneira quase osmótica (existe essa palavra?)! Quando morei em Barcelona, foram as linhas de metrô, as vespas, o movimento das pessoas que me fascinaram. É inevitável que vivendo em uma ilha, essa conexão com o mar, sereia e pescadores se faça.
F: Também percebi que parte das suas criações nas paredes são em locais bastante simples e próximos à comunidade. Quando esteve em Barcelona, vocês fez desenhos para mostrar nas ruas. Pelo visto, você acha importante manter a arte próxima às pessoas. O que faz você pensar dessa forma?
V: Acho este trabalho que é feito na rua de muita responsabilidade. É uma invasão visual que muda a paisagem e, consequentemente, a relação das pessoas com o lugar onde elas vivem, trabalham... podendo causar novos sentimentos e reações. Isso também me fascina muito. Mas a escolha por lugares mais simples tem a ver com a minha própria origem, além da vontade de que meu trabalho seja mais democrático e acessível do que intocável e pra poucos.
F: Na escola, muitas vezes, privam a nossa criatividade. Na aula de artes a professora diz que o céu tem que ser pintado de azul e a grama de verde. Como foi o seu primeiro contato com as artes? Você sofreu alguma limitação desse tipo? Como fez para superar as regras?
V: É verdade. A gente nasce artista e vai deixando de ser ao longo da vida, não é verdade? Só me dei conta disso mais tarde, quando já havia âncoras que me prendiam, acho que é natural. E daí busquei muito, e ainda busco, voltar ao tempo em que as regras, as convenções e os padrões, só servem pra serem quebrados, experimentados. Pra isso existe uma busca interna diária e exaustiva por um pensamento criativo sem âncoras, pra que o trabalho possa voar! Em casa, tive uma certa repressão misturada com incentivo... Isso também se reflete no meu trabalho atual, onde acontece uma mistura de traços mais precisos com interferências mais soltas e gestuais.
F: Você tem falado em um novo momento na sua pintura. Mais introspectivo, mais reflexivo. Você acha que esta é uma fase de tomar maior consciência da sua arte, de onde você quer chegar, ou o contrário, é buscar uma pintura mais livre e intuitiva? Não seria esta também uma luta entre a âncora e o pássaro, dois ícones muito fortes na sua pintura?
V: É um pouco de tudo isso. No momento meu trabalho está em transição, mas espero que isso não acabe nunca. Acho que esse movimento deve ser eterno em um artista. Vejo como uma evolução. Como eu disse na pergunta anterior, as âncoras ainda são fortes, mas aprendi a usar elas também, e entendi que elas são partes da minha história e do meu trabalho. No momento, o que me deixa inquieto e me faz produzir é essa ambiguidade: a âncora que me prende ao chão convivendo com o pássaro que me chama pra voar.
(por Claudia Bär para Fresta)
Adorei....
Pura alma de artista.
Bj