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O tal do chillwave

Pela primeira vez na Fresta iremos abordar uma área diferente das outras que tanto comentamos aqui: a música. O motivo é meio óbvio, acreditamos que todas as áreas criativas interagem e trocam influências entre si e é por isso que vamos falar sobre um novo movimento musical que na verdade nada mais é do que uma tradução de um novo tipo de comportamento, o chillwave.
Para discorrer sobre o tal movimento, convidamos Marcelo Andreguetti, estudante de jornalismo da UFSC, músico frustrado, DJ na noite alterna de Floripa, ávido consumidor de novos sons e leitor assíduo de todos os principais blogs e portais que habitam a blogosfera da Terra Indie, além de ter o seu próprio blog, o Beats & Bleep, e ter colaborado com a revista Naipe.

Admitimos que o Marcelo se empolgou um pouco e falou mais que o homem da cobra, mas o texto ficou tão lindo que recomendamos que você prepare uma xícara gostosa de café e dedique alguns minutos da sua tarde para ficar pro dentro do que rola na esfera moderninha. Boa leitura! ;)

 

Dois anos se passaram e o chillwave completou o curso de “cena criada por dois ou três blogs destinada a desaparecer no dia seguinte” para conquistar status como um gênero de fato com todas suas implicações artísticas. Entre canções e discos completamente irrelevantes de artistas que tentaram subir no bonde, a santíssima trindade do estilo - Toro y Moi, Washed Out e Neon Indian – continuam sendo uma força na cena da música independente, e em 2011 lançaram discos novos aclamados pela crítica. O termo chillwave ganhou em significado e hoje é recorrente no vocabulário de qualquer um que se diz amante de musica atento a novidades. Mas o que é, de fato, o chillwave? De onde veio essa onda de vibes veranísticas, entorpecimento ensolarado e imagens desbotadas? Mais que um movimento marcado por sons, dois anos depois o chillwave emerge como um fenômeno que reflete na cultura de seu tempo: na cultura da internet, em especial.

Houve um tempo em que o nascimento de um “movimento musical” era marcado por características bem identificáveis. Seja uma região geográfica em comum, como no caso do grunge em Seattle, da comunhão de identidades estabelecida em um tipo específico de apresentação ao vivo, como no caso das raves inglesas, ou a forte identificação de elementos comuns nas sonoridades, como no post-punk revival do indie nova-iorquino no início dos anos 2000. Hoje, em tempos de microblogging e socialnetworking digitais, movimentos aparecem e desintegram-se em questão de dias. Uma canção na blogosfera pode ser a nova “salvação da música”, enquanto uma simples piada às vezes servir para rotular toda uma estética. É nesse contexto que surgiu o “chillwave”, um gênero tipicamente “post-internet”: criado, gerido, transmitido – e criticado - quase exclusivamente via web.

Talvez o mais perene desses movimentos, o chillwave soube resistir bem no mundo alternativo das buzz bands* que habitam a blogosfera. O termo “chillwave” surgiu como outra das agulhadas do sempre ácido e irônico blog Hipster Runoff, e, mesmo com alternativas mais “cabeça”, como Hypanogic Pop (batizado assim pela oracular publicação sobre música experimental Wire) ou glo-fi, o termo colou. Só pra ter uma ideia de como o gênero ganhou importância, é possível passear infinitamente pelos discos com a tag chillwave no nodata.tv, por exemplo.

A gestação desse monstrinho do indie começou quando uma série de “bandas de um homem só”, trabalhando em cidades diversas pelos EUA, tiveram suas canções postadas pela internet. No verão de 2009, artistas como Washed Out, Toro y Moi, Neon Indian e Memory Tapes eram nomes carimbados em qualquer blog de música altenativa, e seu som, além de ganhar o malquisto nome, ganhava o mesmo número de admiradores e críticos ferrenhos e artistas de diversas partes do mundo que não tinham nenhuma relação concreta entre si, como Delorean (Espanha), Air France (Suécia) e Keep Shelly in Athens (Grécia) começaram a ser jogados dentro do balaio daquele que ficou conhecido como “verão do chillwave”. O aspecto veranístico, aliás, é uma força proeminente nas músicas com o rótulo. Há uma sensação de tranqüilidade bem palpável, os sintetizadores pulsam como ondas quebrando num oceano eletromagnético, e samples torcidos, deformados, mergulhados em piscinas de reverberação e eco, completam a lista de elementos que dão ao som um tipo de descontração, embriaguez. Todos os artistas associados com o chillwave passeiam por fontes de inspirações oitentistas, brincando com sentimentos de nostalgia e com o kitsch. A fonte pode vir do pop brega dos anos 80, da música new age, de trilhas sonoras de vídeo-games, fitas educacionais ou filmes de terror e ficção-científica em VHS, ou ainda de desenhos animados. A partir daí as composições são trabalhadas, enveredando por conceitos de tempo e memória.
 
Quando o verão do chillwave acabou, a opinião geral entre os music bloggers era que o gênero não tinha força para se manter e que iria sumir tão rápido quanto o electroclash, freak-folk ou outro desses gêneros instantâneos criados pela internet. Mas dois anos depois ainda falamos dele, que mais que uma simples tendência sonora, tornou-se um fenômeno cultural legitimado (bem ou mal) em publicações como New York Times, The Guardian e Wall Street Journal, transmitindo até algumas de suas influências ao mainstream (não tanto ainda por seu apelo sonoro, mas por seu viés imagético).
 
Para entender o gênero, é importante lembrar que quando o chillwave apareceu, seus sons não eram exatamente uma novidade. O mesmo senso de nostalgia, tranqüilidade, isolamento e efeito entorpecente já era algo forte no som do Slowdive e do Boards of Canada, e, mais importante ainda, no trabalho de dois caras que podem ser considerados os “padrinhos do chillwave”: Ariel Pink e Panda Bear. Enquanto o primeiro se apropriava de estéticas sonoras vintage, como o chiado de uma fita cassete, o sintetizador distorcido pela fita eletromagnética danificada, ou os efeitos de reverb e abstração naturalmente obtidos com um gravador de 4 faixas antigo, o último criou em Person Pitch um verdadeiro épico de nostalgia através de samples capturados de raridades da surf music, pop sessentista e dub, traduzindo em música o desejo utópico do “Endless Summer”.
 
Por não ser nada de incrivelmente novo musicalmente, a força do chillwave talvez esteja mesmo em seus aspectos culturais. Primeiro, os artistas associados ao termo são, em quase sua totalidade, compositores solo, que trabalham no isolamento de seus quartos. Muitas vezes o mesmo quarto de sua infância, já que a maioria desses caras são pessoas nos seus 20 e tantos anos recém-graduados que não conseguem um emprego decente pra se sustentar. O blog Pitchfork Reviews Reviews caracteriza o chillwave como “música da recessão”: os artistas associados ao termo compõem como uma maneira de escapismo, sensação detectável constantemente nas críticas de discos do gênero. Além de termos como “praiano”, “veranístico” ou “brisante”, é comum se usar adjetivos como “amniótico” ou “uterino” pra identificar um disco de chillwave. É como se fosse o som de uma geração de jovens sem perspectivas, que se formam em cursos bacanas de universidades importantes pra depois trabalhar em redes de fast-food, que não tem esperanças de se manter como músico por muito tempo. E a praia, o verão, parece ser uma forma de escapismo interessante; a nostalgia de uma juventude perdida, de uma segurança e inocência infantil vira um tema recorrente na música.

Segundo, mais que lembranças sonoras, o chillwave é um gênero que quase imediatamente associa-se a lembranças imagéticas como sua força primária. O estilo soube se construir e se difundir através de pedaços de cultura pop que estava morta ou esquecida. É a estética que aparece em tumblrs, em programas de TV como Robot Chicken ou Family Guy, na onda da lomografia, na moda (como no revival do óculos wayfarer ou na onda hipster de comprar roupas na American Apparel). Uma música como Amor Fati, do Washed Out, por exemplo, parece como se fosse o achado de uma época perdida, em que pessoas de biquínis com seus óculos rayban se divertem na praia abaixo de sol, em seus Jet-skis, com cores saturadas e manchadas como num comercial brega dos anos 80 - aqueles do cigarro Hollywood ou da pasta de dente Kolynos, por exemplo. Outro ponto que ajuda nesse sentido é que quase todas as imagens que esses artistas associam as suas músicas, seja na arte de capa dos discos ou nos videoclipes, usam e abusam de referências a essa cultura pop esquecida. As capas ou fotos de divulgação são geralmente fotografias antigas, fotografias tiradas na estética lomo, ou ainda simplesmente uma foto com o app Hipstamatic do IPhone. Os vídeos seguem a mesma linha, com imagens de arquivo em super 8 de crianças ou jovens se divertindo em algum subúrbio norte-americano nos anos 80, ou ainda filmagens de pessoas surfando, curtindo com seu gatinho/a como se estivesse dentro de uma lomografia sem fim, ou simplesmente sendo cool e “just chillin” enquanto ganha um banho de raios de sol.
 
Esse apelo imagético ganhou tanta força que talvez seja hoje, de fato, o principal efeito do chillwave como fenômeno cultural. Gravadoras mergulham no conceito para tentar vender seus artistas, ou você acha que a capa do último disco do Kings of Leon (em que figura a foto de uma palmeira com cores saturadas) é uma mera coincidência? Ou que, ainda, as fotos e vídeos de divulgação do The Vaccines, cheias de sobreposição e distorção como se tiradas de uma Holga 135 com filme vencido é puramente uma escolha arbitrária? Enfim, os músicos do chillwave podem fazer o que quiser sonicamente, mas o legado de sua música está muito mais nas associações que criamos; ao ouvi-los, vamos diretamente para imagens de programas de TV da infância, para um fim de dia na beira do mar, para aquelas tardes em que passávamos na frente da TV jogando em nossos Nintendos, ou ainda assistindo filmes bregas e trashs no nosso aparelho de VHS.

Agora, voltando ao âmbito musical da coisa, cumpre defender o gênero como interessante, mas com certas ressalvas. Não basta abrir o Fruity Loops ou o Ableton no seu laptop e começar a picotar uns samples de desenhos animados antigos e fitas cassete achadas no porão dos seus pais, encher tudo de reverb, chamar seu projeto de BEΔCH TOUCH e criar um tumblr com fotos antigas de gente na praia. A relevância de artistas como Toro y Moi, Washed Out e Neon Indian ainda hoje, enquanto outros nomes esvaneceram no fogo do hype, mostra que eles só conseguiram manter o chillwave vivo por sua sensibilidade como compositores, ao ampliar a paleta de sonoridades e abraçar sons de estúdio e valores de produção mais complexos nos seus lançamentos depois do fim do “verão do chillwave”. Afinal, foi esse o caminho que o pai do gênero tomou, não é mesmo? O Ariel Pink só se tornou um nome relevante na crítica musical ao esquecer o isolamento e gravar Before Today em 2010 com toda a parafernália de estúdio que lhe era permitida. Seu som continuou infectado por todo o espectro de referências que marcaram sua carreira, como o pop das rádios AM nos anos 70 e 80, ou o soft-rock da mesma época, com toda a nostalgia e sensibilidade lânguida do ali presente. Mas Ariel soube usar suas habilidades como compositor e não perder de vista o capricho e zelo com a sonoridade, que afinal é o que faz de um projeto musical qualquer ser realmente mais significativo após passar seu status de buzz band.

* Buzz bands: banda ou artista que ainda não lançou nenhum álbum, mas que gravou algum single ou EP por um selo obscuro e caiu na graça de algum music blogger influente, logo a coisa se torna viral dentro do circuito indie e a buzz band cai na graça de todos que esperam a próxima "bia thing", exemplos disso não faltam, como o próprio Toro y Moi. 

 

 

Quem curtiu esse post também vai gostar da mixtape que o Thiago Ramos (aka buiu) fez com uma seleção de chillwave, lo-fi, dream pop e afins: http://soundcloud.com/buiu/mixt
-pe-one
Cláudia Bär
Fresta
19.09.2011 às 20:39
Sim, so com um bom café, mas vale a ideia.
Giba Duarte
Parceiros
03.09.2012 às 17:04
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